15 de jun de 2008

Projeto o Corpo

Mais do que recebermos idéias práticas para aplicarmos em sala de aula, acredito ser importante termos subsídios para enriquecer o nosso planejamento. 

Nesse projeto o objetivo é a liberação das emoções e dos fantasmas internos através dos movimentos corporais e dos jogos simbólicos criados pela criança. 


Período: ( Mês em que será trabalhado)
Duração: De duas a três semanas.

Objetivos:

  • Identificar todas as partes do corpo; 
  • Conhecer as partes do corpo;
  • Reconhecer os sentidos;
  • Identificar e diferenciar as partes do próprio corpo com as partes do corpo dos amigos;
  • Vestir-se e desvestir-se sozinhos.

O professor deverá:

  • Estimular as crianças a: rolar, agarrar, sentar, engatinhar, andar em um pé só, andar sobre linhas – Trabalhando assim atividades de Psicomotricidade;
  • Estimular o raciocínio e a atenção;
  • Estimular a Socialização 
  • Estimular as crianças a explorar todos os 5 sentidos de forma abrangente.
Culminância: 
  • Ginástica orientada com músicas;
  • Montagem de um mural e de dois bonecões para brincar e enfeitar a sala de aula.

“O coração da criança é campo favorável a semeadura do bem”

Iniciando o projeto com uma dinâmica...

Auto-retrato:

Objetivo: 
Explorar a forma corporal como veículo de mobilização da fantasia e da criação. 

Desenvolvimento:
Num primeiro momento organizar a turma em trios e propor a brincadeira do “João Bobo” – Em que um aluno fica no centro com o corpo rígido deixando-se movimentar para frente e para trás pelos dois colegas.
Numa segunda brincadeira, ainda nos trios, propor que um aluno seja uma “marionete”
deixando os outros dois colegas manipularem seu corpo, adaptando-o a diferentes posições, de acordo com situações ou sentimentos que queiram expressar. Sugerir que revezem dentro do grupo de três.

Numa terceira brincadeira o professor deve orientar, com uma música clássica ao fundo, que os alunos, de olhos fechados, toquem cada parte do corpo: cabeça, cabelos, rosto, braços, mãos, pernas, pés, barriga etc. Em seguida, cada aluno deitará em uma folha grande o suficiente para que a professora ou os colegas contornem o perfil do seu corpo. Todos com seus perfis contornados deverão completar a figura de seu corpo acrescentando detalhes que o identifiquem. É interessante que tenha um espelho grande, onde o aluno consiga se ver inteiro e observe cada detalhe antes de desenhar. Concluir com a montagem de um mural com os auto-retratos do tamanho natural das crianças.

Na “rodinha”:
Num segundo momento o professor deve conversar de forma informal sobre cada parte do corpo: boca, nariz, orelhas, braços, mãos, tronco, pernas, pés...Para que servem? – O professor deve provocar as crianças com esta pergunta para cada parte do corpo que for citada.
Deixar que os alunos se expressem livremente, fazendo as devidas colocações e orientações.

Ao fim da conversa sugerimos o trabalho com as músicas já bastante conhecidas em sala de aula, as quais as crianças adoram.

1 - Partes do Corpo:
Cabeça, ombro, joelho e pé.Cabeça, ombro, joelho e pé. Olhos, ouvidos, boca e nariz. Cabeça, ombro, joelho e pé. Cantar a música dramatizando-a. Pedir que as crianças mostrem as partes do corpo em si e nos amigos. Mostrar gravuras e pedir que indiquem as partes do corpo.

2 - Pop Pop:
Coloque a mão para frente, coloque a mão para o lado, coloque a mão para frente, balança ela agora eu danço pop pop. Eu danço pop pop. Eu danço pop pop. Assim é bem melhor!
( Repetir com todas as partes do corpo possíveis. )
Cantar a música dramatizando-a .


3 - Remexo:
Ponha a mão na cabeça. Ponha a mão na cintura. Dá um abraço no corpo. Dá um abraço doçura Sai sai sai Oh! Piaba Sai lá da lagoa. Cantar a música dramatizando-a. 

Relaxamento... 
Aproveitar a excelente fase da cantora e apresentadora Xuxa e do estímulo que provoca nas crianças, concluir com o relaxamento da música: Feche os olhos – Do CD Xuxa só para baixinhos 1.

Se meu corpo falasse...
Ler de maneira lúdica e agradável um ou mais livros da coleção CORPIM de Ziraldo. Comentar com os alunos o tema principal dos livros: As partes do corpo e seus sentimentos, pensamentos, ações, ideais e planos futuros. Propor aos alunos que imaginando a voz de cada parte do corpo respondam perguntas como: Se o nariz falasse, o que ele diria? E o dente cariado? E os seus pés depois de você andar muito? E a barriga quando você come demais?Após esta etapa, quando o grupo estiver bastante incentivado pedir que as crianças façam perguntas para as partes do corpo dos amigos. Deixar que as crianças expressem suas idéias, pensamentos, elaborem suas frases, intervindo o menos possível – mas estimulando sempre, mostrando interesse na brincadeira.

Em um segundo momento o professor – dinamizador deve propor que a turma divida-se em grupos monte os quebra-cabeças das partes do corpo  Deixar que os alunos montem e desmontem enquanto houver interesse.

É interessante apresentar um cartaz com as partes do corpo e deixar fixo na sala de aula.

Montar bonecos articulados com as crianças, fazendo-as pintar, e deixar que brinquem a vontade por algum tempo.

Os Sentidos...

Já tendo explorado bastante as partes do corpo, observado no espelho, dançando, tocando-o, relaxando... Passar para a segunda fase do projeto: Explorar os sentidos.

Visão: Mostrar figuras coloridas pequenas, médias e grandes; figuras preta e brancas pequenas, médias e grandes; mostrar de longe, de perto, de muito perto – sempre perguntando o que estão vendo e como. Provocar os alunos para que percebam a importância da visão. E repetir a pergunta: Para que servem nossos olhos?

Audição: Brincar de identificar sons de instrumentos, da natureza,vozes, barulhos em geral; falar bem baixinho, falar alto, propor que todos sussurrem, gritem, fiquem em silêncio. Enfim, através de diversas brincadeiras provocar para que percebam a importância dos ouvidos e da audição. Repetir a pergunta: Para que servem nossos ouvidos?

Olfato: Brincar de distinguir diferentes cheiros de olhos vendados – Dizer cheiros que agradam e os que desagradam - provocando-os até perceberem a importância de nosso nariz, de nosso olfato.

Paladar: Brincar de provar diferentes tipos de alimentos de olhos vendados – provocando-os até perceberem a importância da língua, de nosso paladar.

Tato: Brincar de sentir diferentes texturas: algodão, lixa, esponja, água fria, água morna, gelo etc.) – provocando-os até perceberem a importância do tato, de sentir o toque. O professor pode criar uma caixa fechada com um buraco apenas para caber as mãos das crianças, e dentro dela devem conter diferentes materiais onde poderão tocar e dizer o que sentem se é macio ou áspero. Outra brincadeira legal é: de olhos fechados, descobrir em que parte dos eu corpo o colega está tocando.

Brincar com o corpo e com os sentidos...
O professor deve propiciar atividades diversas de Psicomotricidade: 
Pular em um pé som ao ritmo de uma música;
Andar em cima de uma linha traçada no chão com uma bola na mão; 
Subir e descer escadas ao ouvir determinados sons; 
Engatinhar, saltar, com ritmo ou livremente; 
Virar cambalhota com auxílio do professor em um colchonete; 
Vestir e desvestir-se, com a roupa pedida, a cada ordem do professor;
Dançar em diferentes ritmos; 
Pular entre bambolês; 
Imitar animais;
Andar em curvas; 
Arremessar e agarrar bolas; 
Brincar de Chefinho mandou; 
Brincar de Morto-Vivo; 
Brincar de Estátua; 
Brincar de cabra-cega; 
E inúmeras outras atividades de acordo com a necessidade da turma.

Sugestões de Alguns Jogos de Trabalho com corpo e explorando os sentidos:

1 – Caçador de tartarugas:
Os jogadores dispersam-se pelo pátio: são as tartarugas. Ao sinal, o caçador sai correndo para pegar as tartarugas. Estas evitarão ser apanhadas deitando-se de costas, pernas e braços encolhidos, imitando tartaruga deitada de costas. Enquanto estiverem nesta posição, não poderão ser caçadas. O jogador que for apanhado será eliminado.

2 – Jogo das Cores:
Sentados em círculos, os alunos devem aguardar a indicação do professor.Ao indicar uma cor, exemplo: verde – Todos devem sair correndo e tocar em algo da cor indicada.

3 – Me dá um abraço:
Os alunos devem estar distantes um do outro. Ao sinal especificado: Três palminhas dadas pelo professor, por exemplo, todos devem correr e encontrar um amigo para abraçar.

4 - Lobos e Carneirinhos:
Formação: Traçar no chão duas linhas afastadas cerca de 20 metros uma da outra. As crianças são divididas em dois grupos: lobos e Carneirinhos. Cada grupo se coloca atrás de uma linha. O grupo dos lobos fica de costas para o grupo dos Carneirinhos.  
Desenvolvimento: Ao sinal do professor, os Carneirinhos saem a caminhar, o mais silenciosamente possível, em direção aos lobos. Quando estiverem bem próximo deles o professor diz: “Cuidado com os lobos”!Estes, então, voltam-se rapidamente em partem em perseguição aos Carneirinhos. Os Carneirinhos apanhados antes de alcançar a linha original ( de onde vieram) passam a ser lobos. Na repetição da brincadeira invertem-se os papéis.

Sugestão: Antes de proporcionar essa brincadeira, é interessante que se explore o que se sabe e se discuta sobre esses animais: Como são? Quem já viu um carneirinho? Quem já viu um lobo? Onde? Quando? Se viu, o que achou do animal? Vamos imitar um lobo? Vamos imitar um carneirinho?O professor deve explorar o tema de acordo com o interesse das crianças.

5 - Onça Dorminhoca:
Formação: Formar com os alunos uma roda grande. Cada criança fica dentro de um pequeno círculo desenhado sob os pés, exceto uma que ficará no centro da roda, deitada de olhos fechados. Ela é a Onça dorminhoca.

Desenvolvimento: Todos os jogadores andam a vontade, saindo de seus lugares, exceto a onça dorminhoca que continua dormindo. Eles deverão desafiar a onça gritando-lhe: “Onça dorminhoca”! Inesperadamente, a onça acorda e corre para pegar um dos lugares assinalados no chão. Todas as outras crianças procuram fazer o mesmo. Quem ficar sem lugar será a nova Onça dorminhoca.

Sugestão: O professor poderá proporcionar um estudo sobre a onça, de acordo com o interesse das crianças: Quem já viu uma onça?Aonde? Quando?Como ela é? Como vive? O que come?Quem quer imitá-la?Confeccionar uma máscara de cartolina ou papelão para aquele que fará o papel da onça.
6 - Corrida do Elefante:
Formação: As crianças andam à vontade pelo pátio. Uma delas separada utiliza um braço segurando com a mão a ponta do nariz e o outro braço passando pelo espaço vazio formado pelo braço. ( Imitando uma tromba de elefante).

Desenvolvimento: Ao sinal, o pegador sai a pegar os demais usando somente o braço que está livre ( O outro continua segurando o nariz). Quem for tocado transforma-se também em elefante, logo, em pegador, adotando a mesma posição. Será vencedor o último a ser preso.

Sugestão: As crianças, durante a brincadeira podem caminhar como um elefante.

Sempre é bom...

  • Trabalhar com parlendas, adivinhas, trava-línguas; 
  • Desenhar livremente ou de maneira orientada – Exemplo: Desenhe seus olhos. 
  • Trabalhar pesquisas. Deixar que as crianças recortem e colem diferentes figuras de corpo humano;
  • Usar as cantigas e brincadeiras de roda; 
  • Modelar bonecos, procurando colocar todas as partes do corpo;

Para finalizar o projeto sugerimos a criação de um boneco do tamanho das crianças feito de sucata – Nomeá-lo, listar suas características de personalidade e caráter, cada parte do corpo que for sendo criada o professor aproveita para revisar tudo que já trabalharam.

Autora: Patrícia Fonte
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Texto complementar:

O CORPO COMO ESPAÇO DE APRENDIZAGEM

Se perguntarmos a qualquer criança qual é a melhor hora na escola, ela dirá sem pestanejar que é a hora do recreio. Momento em que ela corre, brinca, se movimenta e cria sua história. Por muito tempo vimos a Educação se preocupar com uma mente desconectada de um corpo vivo. O que propomos nesse artigo é não só superar esse paradigma cartesiano, mas aderir a uma Educação integral. Essa é uma resposta a uma necessidade social e humana que enfatiza o respeito à diferença, à cultura e abrange o ciclo histórico, ecológico e filosófico do ser humano, abordando o que é mais humano no humano – o corpo. 


O corpo como espaço de aprendizagem. Espaço, em Educação, até então considerado como o lócus onde os processos de ensino, pesquisa e seus sujeitos habitam. Abordamos aqui, a partir de uma pesquisa bibliográfica, a idéia de um espaço de ensino como um espaço de prazer, um espaço sedutor, embalando a idéia do corpo como espaço de aprendizagem, reinaugurando um olhar sobre os efeitos da aprendizagem no ser humano: O corpo na aprendizagem. 

Para compreender a questão do corpo na aprendizagem é fundamental falar em Educação e reconhecer o óbvio, de que seus atores são os seres humanos. Morin (2004) lembra-nos que o ser humano é um ser a um só tempo plenamente biológico e plenamente cultural, que desenvolve de modo surpreendente as potencialidades da vida através do aprendizado. E quando essa aprendizagem é significativa, ela transforma e renova a própria vida. Essa idéia vem a ser confirmada por Fernández (1991), que traz à reflexão um conceito chave: o organismo transversalizado pelo desejo e pela inteligência, conforma uma corporeidade, um corpo que aprende, goza, pensa, sofre ou age (p. 58). Para isso é imprescindível abandonar a visão unilateral que “... define o ser humano pela racionalidade (homo sapiens), pela técnica (homo faber), pelas atividades utilitárias (homo economicus), pelas necessidades obrigatórias (homo prosaicus) e admitir que o ser humano é complexo e traz em si, de modo bipolarizado, caracteres antagonistas: sapiens e demens (sábio e louco); faber e ludens (trabalhador e lúdico); empiricus e imaginarius (empíríco e imaginário); economicus e consumans (economico e consumista); prosaicus e poeticus (prosaico e poético) (Morin, 2004. p. 58). 

Nesse movimento de superação de uma visão unilateral para uma abordagem até mesmo interdisciplinar, descobrimos um homem e uma mulher cheios de movimento, de afetividade, de emoção, de sonhos, de espaço para criatividade, a ludicidade e a aprendizagem. “A Educação deveria mostrar e ilustrar o destino multifacetado do humano: o destino da espécie humana, individual, social, histórico, todos entrelaçados e inseparáveis. Assim, uma das vocações essenciais da Educação do futuro será o exame e o estudo da complexidade humana. É nessa complexidade que encontramos aquilo que é ou poderia ser o mais humano no ser humano – o corpo (Rosa, 2002. p. 185).

Antes mesmo de continuar a falar no corpo como um espaço de aprendizagem, recordemos que em Educação, espaço “... pode ser considerado como o lócus real ou virtual, factual ou fenomenológico, em que os processos de ensino, pesquisa e seus sujeitos habitam. E uma das questões relativas ao espaço construído da escola é uma crítica à forma como esse espaço é organizado, projetado. Numa nova perspectiva, um espaço de ensino é um espaço de prazer, um espaço sedutor, daí a necessidade de um outro entendimento do espaço (Matos, 2002. p. 143). Daí que embalamos a idéia do corpo, o próprio corpo humano, como um espaço de aprendizagem. 

O corpo do humano aprendiz Por muito tempo vimos a Educação se preocupar com uma mente desconectada de um corpo vivo que, “embora brincante e aprendiz tanto quanto sua mente, não lhe tem dirigidas maiores atenções, ignorando desde suas necessidades mais básicas aos seus desejos mais postergáveis”. (Rosa, 2002. p. 185). Assim, a Educação enfatizou a aprendizagem apenas na inteligência, fragmentando o humano na tentativa de compreendê-lo melhor. Mas esse paradigma cartesiano vem sendo superado pelo paradigma da sociedade do conhecimento que propõe a totalidade. Já dizia Sócrates (apud Taino, 2002. p.103) que a totalidade só é possível pela busca da interioridade. Quanto mais se interioriza mais certezas vai se adquirindo da ignorância, da limitação, da provisoriedade, que nos impulsiona à descoberta, ao conhecimento, à busca pelo entendimento da totalidade. É disso que falamos quando citamos uma necessidade de uma abordagem interdisciplinar, capaz de abrir ao novo, numa nova perspectiva, aceitando o desafio de olhar o humano como um ser completo e ao mesmo tempo inacabado com diria Freire (1996). 

Há uma necessidade social e humana de buscar uma Educação integral, de acordo com o pensamento de Maturana (1998), no qual todas as partes sejam reconhecidas no todo e os sentidos e o corpo tomam para si o compromisso, a magia e a beleza da aprendizagem.Aquilo que é ou poderia ser o mais humano no ser humano – o corpo – é por vezes negado enquanto existência na Educação. Isso se revela na forma como o corpo é abordado, geralmente pela disciplinarização de movimentos, domesticação de comportamentos, instintos, posturas e sonhos. “Aprende-se que há hora para tudo, controlam-se todas as rotinas naturais pelas rotinas escolares e que estabelecem a ocupação do tempo e do espaço. Se perguntarmos a qualquer criança qual é a melhor hora na escola, ela dirá sem pestanejar que é a hora do recreio. Momento em que ela corre, brinca, se movimenta e cria sua história”. (Maturana, 1998. p. 61)  Assim, seguindo no pensamento de Maturana (1998), “... a dificuldade das mudanças de entendimento, de pensamento, de valores, é grande. Isso se deve à inércia corporal, e não ao fato de o corpo ser um lastro ou construir uma limitação. Ele é nossa possibilidade e condição de ser”. (p. 61) Cabe ressaltarmos o paralelo entre organismo e corpo, traçado por Fernández (1991), quando o organismo é um sistema de auto-regulação inscrito, enquanto que o corpo é um mediador e por sua vez um sintetizador dos comportamentos eficazes para a apropriação do ‘em torno’ por parte do sujeito. Conseqüentemente, na opinião desta autora “o corpo acumula experiências, adquire novas destrezas, automatiza os movimentos de maneira a produzir programações originais ou culturais de comportamento” (Fernández, 1991. p. 58).

Nesse sentido, a ludicidade encontra cada vez maior espaço no imaginário e na construção do conhecimento da criança. Abordar o corpo na aprendizagem não só amplia a visão unilateral, para um olhar interdisciplinar da corporeidade humana, mas adere a um pensamento ainda mais humano, enfatizando o respeito à diferença, a cultura, abrangendo o ciclo histórico, ecológico e filosófico do ser humano. O aprendizado a partir do corpo. Considerando toda reflexão anterior, veremos que a ação revelada pelo ser humano não pode ser dualista, compreendida apenas como um ato mecânico, mas inclui observar as causas que motivam cada uma das atividades exercidas nele e por ele. O momento em que cada movimento se realiza não envolve apenas segmentos musculares, há ali uma necessidade de expressão e comunicação, nesse sentido inclui os sentimentos e emoções. Assim, “o movimento corporal é essencialmente a expressividade humana”. (Falkenbach, 2002. p. 55) 

Maturana (1998) reafirma de que “não é a razão o que nos leva à ação, mas a emoção. Não há ação humana sem uma emoção. E a emoção nos envolve e nos movimenta para aprender”. Fernández (1991) parte do princípio que a “aprendizagem passa pelo corpo”. (p.59)Uma vez que o corpo está presente na aprendizagem, não somente como ato, mas também como prazer; porque o prazer está no corpo, sua ressonância não pode deixar de ser corporal, porque sem signo corporal de prazer, este desaparece”. (p. 59) As pessoas aprendem um componente quando são capazes de atribuir algum significado a ele, quando associam a outro e a outro, e fazem ligações que começam a tomar sentido diferente, reforçando ou construindo um novo conhecimento. 

Essa aprendizagem significativa irá envolver o ser humano na sua totalidade, num movimento de busca, de ressignificações, de movimento, de criatividade e alegria pelas novas descobertas do modo de ser e viver. “Todos sabemos, ainda que nem sempre tenhamos clareza disso, o que está envolvido no aprender é a transformação de nossa corporalidade, que segue um curso ou outro dependendo de nosso modo de viver. Falamos de aprendizagem como da captação de um mundo independente num operar abstrato que quase não atinge nossa corporalidade, mas sabemos que não é assim. Sabemos que o aprender tem a ver com as mudanças estruturais que ocorrem em nós de maneira contingente com a história de nossas interações”. (Maturana, 1998. p. 60) 29/05/07 Fabiana Essas interações citadas pelo autor nos impelem a um olhar mais cuidadoso para o corpo do aprendiz, atentando para os “... jeitos e trejeitos corporais muitas vezes disfarçados sem seus gestos, tonalidades de voz, silêncio, olhares ora complacentes, ora tolerantes, ora inquietos e, muitas vezes cúmplices desta aventura que é o apreender o mundo”. (Rosa, 2002. p. 187) 

Perceber no corpo aprendiz significa olhar o humano na sua totalidade, reconhecê-lo em seus desejos, aceitá-lo em suas carências e necessidades, compreendê-lo pelas repressões sofridas e, por fim, estimulá-lo em suas potencialidades. “Tudo começa com um sonho. O corpo sonha. Pois como Freud percebeu, ele é movido pelo ‘princípio do prazer”’, profetiza Rubem Alves (2005, p. 19) quando fala sobre a Educação dos sentidos, inaugurando um olhar renovado sobre o corpo, sobretudo sobre os sentidos, numa necessidade de coerência, de totalidade, de respeito às diferenças, de integração do que se sente com o que se pensa desencadeando uma ação. O autor finaliza questionando: “E qual seria a tarefa primordial da Educação senão levar-nos a aprender a amar, a sonhar, a fazer nossos próprios caminhos, a descobrir novas formas de ver, de ouvir, de sentir, de perceber, a ousar pensar diferente... a sermos cada vez mais nós mesmos, aceitando o desafio do novo?” (Alves, 2005, pág. 19)

Este desafio do novo está em promover uma Educação significativa, capaz de envolver o humano na sua totalidade, numa dinâmica de prazer, de alegria, de descoberta, de criatividade, escondidos no corpo, utilizando-se dele como espaço de aprendizagem. O ser humano aprendente será feliz quando lhe for possibilitada uma Educação integral, na qual o corpo é este espaço privilegiado de formação. 

29/05/07 Fabiana Referências bibliográficas:

ALVES, Rubem. A Educação dos sentidos e mais... São Paulo: Versos, 2005.FALKENBACH, Atos Prinz. A Educação Física na Escola: uma experiência como professor. Lajeado: UNIVATES, 2002.FERNÁNDEZ, Alicia. Inteligência Aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. 25ª ed. São Paulo: PAZ e Terra, 1996. MATOS, Ricardo Hage de. Espaço. In: FAZENDA, Ivani.org. Dicionário em construção: interdisciplinaridade. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2002.Maturana, Humberto. Emoções e linguagem na Educação. Belo Horizonte: UFMG, 1998.MORIN, Edgar. Os setes saberes necessários à Educação do futuro. 9ª ed. São Paulo: Cortez, 2004.ROSA, Mirian Suzete de Oliveira. Corporeidade. In: FAZENDA, Ivani.org. Dicionário em construção: interdisciplinaridade. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2002.TAINO, Ana Maria dos Reis. Totalidade. In: FAZENDA, Ivani.org. Dicionário em construção: interdisciplinaridade. 2ªed. São Paulo: Cortez, 2002. 
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